quinta-feira, 3 de julho de 2014

O contos dos contos

Como já havia dito , farei alguns contos e espero que você apreciem , é feito com muito ardor.


                                                Nada dura para sempre 

      Ao retornar para casa num fim de tarde qualquer após uma exaustiva jornada de trabalho , ônibus após ônibus , negação após negação , perguntou-se se teria mais uma noite turbulenta e sem nenhum sono devido as brigas incessantes de seus pais. Pensou que seu pai talvez pudesse ter morrido num acidente  e então não haveria mais nada. Sua mãe pararia de chorar e sofrer , e ele poderia voltar a escola , era o que mais ansiava . Demorou um pouco para que se condenasse por esse pensamento ,mórbido e horrível . Certamente irei para o inferno, pensou ele. Isso já lhe renderia umas boas 50 ave-marias do vigário  da igreja. Mas nenhuma oração  o livrava  do impulso selvagem que brotava em suas veias todas vez que o via chegar embriagado , falando vulgaridades e palavras de teor sexual para a mulher, o impulso dizia para socá-lo até perder a consciência . Entretanto a parte sensata o continha. 
Sua família era feliz , ponderava ele , faziam piqueniques , andavam de bicicleta , arrumavam a mesa para o jantar . Faziam tudo juntos. Só que um dia , seu pai chegou  com um semblante diferente , sua aura havia mudado . E a partir daí  , nada foi o  mesmo. Todos  os dias independentemente de dias comerciais , feriados , natal , ano-novo , seu pai chegava em casa bêbado e furioso.Batia estuprava a mãe , esta o trancava no quarto para também não ser alvo da brutalidade inexplicável do homem que não era mais seu pai. Era um monstro. Um pai amoroso não espanca  sua dedicada esposa e não fere os sentimentos da esposa. Desde essa mudança , Paulo não ia a escola particular que frequentava graças a uma prova de admissão que havia feito. Agora era escravo do monstro , e fazia suas vontades sob a ameaça de chegar em casa e ver a mãe morta. Isso o fazia estremecer de raiva.Tinha que conter as lágrimas e soluços que as vezes lhe vinham quando pensava na pobre mulher que o protegia todas as noites. Cogitava acionar a polícia , mas seu pai tinha amigos influentes, inverteriam a história e ele e sua mãe poderiam apanhar de tal forma que teriam que andar de muletas .
Seu turno começava as 06:00 e terminava as 22:00. Vendendo balas e salgadinhos , conseguia a renda que impedia a morte de sua mãe . Era estabelecido uma "meta" .R$ 50,00 reais por dia e caso ousasse voltar para casa sem o dinheiro levava chutes e socos e consequentemente sua mãe que intervinha .Estava com 12 anos , a última vez que tivera uma cueca nova fora há três anos . A sola de seu único tênis estava desgastada , suas roupas puídas e sua crença de que um dia aquilo acabaria eram nulas . Como poderia ter uma vida melhor se não frequentava uma escola? Não tinha mais amigos .Ninguém queria ser visto perto do "camelô" .Já fazia muito que não ligava para isso . A esperança tinha lhe escapado assim como o elástico que segurava seus longos cabelos . A liberdade , essa palavra era desconhecida por ele, a felicidade era um lago intransponível , tudo isso fora substituído por paradoxos entre a amargura e tristeza .Não era um menino feliz via-se isso em seu olhar melancólicos e em seus ombros curvados e rosto sofrido. Ele lutava para sair do buraco que se tornara sua vida todavia, não conseguia , era um garoto inteligente , bom em idiomas , teria futuro , se não fosse a nuvem negra que se abateu sobre um garoto antes feliz e vigoroso . Ao aproximar-se de seu bairro, todos o olhava, por que sabiam o  que acontecia.Idiotas , pensava ele , por que não fazem alguma coisa? Chegou ao portão , as luzes estavam apagadas , um acontecimento atípico . Ao adentrar a residência de 6 cômodos , constatou que todos os velhos móveis haviam sido  retirados , tudo vazio. Foi até o quarto de sua mãe  e lá estava ela , olhando para o vazio da vegetação do lado de fora , chorosa. Ela era uma mulher linda, antes daquele período, um período que poderia ter sido chamado de vida , isso era o inferno . Parecia ter envelhecido dez  anos em três , , no entanto , ainda continuava esbelta , com fartos cabelos negros e os olhos de um azul profundo , Elisa era uma mulher encantadora , dócil , gentil , enfim , peculiar , apesar de tudo, mantinha  essas virtudes. Ele se aproximou e perguntou oque havia acontecido , temeroso pela resposta. Ela lhe disse que seu pai havia vendido tudo e partido com uma nova mulher . Algo explodiu dentro de Paulo , o alívio o inundou. Livre. Estava livre . Poderiam começar novamente . O sofrimento fizera Paulo amadurecer ele não correspondeu com as expectativas do sistema de se tornar violento assim como seu agressor . Herdara não apenas os olhos de sua mãe , mas também o coração e mesmo com a súbitas explosões de fúria e incredulidade , era uma boa pessoa e poderia recomeçar sua vida . Sua mãe já não esboçava a mesma felicidade e por um bom motivo . Como iriam recomeçar ? Ela tinha  cursado geologia , poderiam e iam  sobreviver. Para enfatizar isso ele disse:
-Através do entulho, vamos reconstruir as paredes. Isso pareceu  tirá-la  do devaneio  e reconfortá-la, poderiam vender a casa e alugar uma outra , Elisa conseguiria um emprego e Paulo voltaria a estudar . A vida voltara... E daí Paulo percebeu que perdera o último ônibus da estação e que chegaria atrasado e seria punido por isso. Sonhara acordado e queria tanto  que fosse verdade que deixou escapar uma lágrima tórrida. A vida não voltara. E ele  já se imaginava no futuro. Pedindo esmolas , morrendo de fome . Não muito diferente de sua  situação atual . Mas se lembrou da frase que disse , mesmo que sendo apenas um sonho : Através do entulho, vamos reconstruir as paredes . E era isso que ele faria . Suportaria a tudo . Concluiria o ensino médio , faria faculdade e se tornaria letrado. Não deixaria uma adversidade como esta lhe atrapalhar . Não conversaria com seu pai , ele sabia que o mero ato de se dirigir a ele era motivo de um sonoro tapa no rosto. Tentaria andar nas "rédeas" para evitar que sua mãe fosse espancada . E quando surgisse uma oportunidade fugiria do monstro. 
Atravessou a rua , afogado no turbilhão de emoções e não viu o caminhão de mudanças passava a toda velocidade . 
Sentiu uma dor na cabeça e só viu uma  pequena luz piscando ...Piscando ...E então...Se apagou
O sofrimento acabara , foi seu pensamento derradeiro .
POR JÚLIA VALVERDE

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